Neurose do Destino


A neurose do destino é uma compulsão à repetição. È algo que se repete na vida das pessoas como uma compulsão. A vida das pessoas com neurose do destino nos dá a impressão de um destino que as perseguem, de uma influência demoníaca que não as largam nunca, pois, as acompanham como uma sombra. Muitas delas parecem lutar contra este destino maldito, mas caem sempre no mesmo buraco. A ajuda externa de gente amiga ou mesmo de parentes próximos, pouco efeito tem para mudar o curso da vida destas pessoas. Tudo nos leva a crer que há no psiquismo delas algo muito estranho, algo como se fosse uma força demoníaca, da qual o individuo não consegue se libertar. É como se destino já tivesse sido traçado.
Os evangélicos neo-pentecostais chamam este destino inevitável de maldição de família (uma maldição que acompanha a família pôr causa de práticas pecaminosas, cometidas pôr algum antepassado) ou influência do maligno. Os espíritas, budistas e grande parte dos povos do Oriente, costumam denominar este destino de lei do Karma (originária do Hinduismo que defende que qualquer ato, por mais insignificante que seja se voltará ao individuo com igual impacto). A lei do Karma (segundo os que nela acreditam) governa tudo que é criado, e é uma lei imodificável. Ela é conhecida nas religiões como “justiça celestial”. Na “Gnosis”, é simbolizada com uma balança. O prato direito corresponde às boas ações e é denominado DHARMA.; o prato esquerdo corresponde às más ações e é chamado KARMA. É também conhecida como a lei de ação e conseqüência, ou seja, da causa e do efeito.
A psicanálise considera tal destino como preparado, em sua maior parte, pela própria pessoa e determinado por influências infantis muito precoces. A obsessão que é como se manifesta a neurose do destino não se diferencia da repetição que ocorre nos neuróticos em geral, porém nunca apresenta sinais de um conflito neurótico, cuja dinâmica seja a formação de sintomas. Freud nos alerta em seu celebre texto: “Além do Principio do Prazer”, sobre uma parte maldita do inconsciente, denominada de pulsão de morte. Refere-se a ela como um excedente de satisfação, que tende a repetir-se sempre. Uma repetição que não busca em si o prazer, mais que se apresenta como um gênio maldito, como uma força inexorável que quer conduzir o indivíduo ao nada inorgânico. Há na neurose do destino uma satisfação paradoxal, na qual a renuncia ao prazer alimenta o superego (instância crítica da personalidade), estabelecendo uma relação circular entre este e a pulsão de morte. Nesse processo o superego se torna uma instancia abstrata e impessoal que goza em renunciar ao gozo ou mesmo em provocar o sofrimento. Com certeza há no psiquismo das pessoas com neurose do destino um sentimento inconsciente de culpa e um masoquismo moral ativo
Como exemplos de neurose do destino Freud cita “aqueles indivíduos nos quais toda relação humana chega a um igual desenlace: Benfeitores cujos seus protegidos, por diferentes que sejam seus caracteres, abandonam-no irremissivelmente, com enfado, ao cabo de certo tempo, parecendo assim destinados a saborear todo o amargor da ingratidão. Homens em que toda amizade termina pela traição do amigo; os amantes cuja relação com as mulheres passa sempre pelas mesmas fases e chega sempre ao mesmo destino – o desenlace; e cita ainda o caso de uma mulher que, casada três vezes, sucessivamente, viu em tão pouco tempo adoecer os seus três maridos, tendo que cuidar dos mesmos até morte”. Podemos exemplificar também com pessoas que repetem várias vezes em sua vida as mesmas ações sem nunca obter sucesso. Quando se aproximam de alguma possibilidade de êxito, geralmente ocorre algo que fazem fracassar. Diz-se que são arruinados pelo êxito. Tudo funciona como uma perpétua volta, seja quando se trata de uma conduta ativa do sujeito ou quando achamos o traço característico permanente do seu ser, que tem que se manifestar na repetição dos mesmos atos.
Porém, segundo Freud a exposição poética mais emocionante de tal destino vem da literatura e foi composta por Tasso em sua epopéia romântica: “Jerusalém libertada”. O herói Tancredo mata, sem saber, a sua bem amada Clorinda, num duelo, estando ela disfarçada sob a armadura de um cavaleiro inimigo. Depois de seu enterro penetra Tancredo num inquietante bosque encantado que infunde terror ao exército dos cruzados. Com a espada faz ele um talho numa árvore altaneira e do cujo corte escorre sangue e a voz de Clorinda (cuja alma estava aprisionada na árvore) é ouvida acusando-o de tê-la ferida de morte pela segunda vez.