A psiquiatria na Contemporaneidade


A psiquiatria na contemporaneidade está vivendo a sua melhor fase, graças principalmente ao avanço das neurociências, mormente da neuropsicofarmacologia, uma das ciências que mais tem pesquisado e estudado o cérebro humano, em decorrência do desenvolvimento de uma outra ciência – a psicofarmacologia dos transtornos mentais.
Tomando por base os processos neuroquímicos envolvidos nos transtornos mentais, a partir da década de cinqüenta do século passado, foram descobertos os primeiros psicofármacos com real eficácia sobre as doenças mentais. Porém, o salto maior se deu a partir dos anos noventa com a descoberta da fluoxetina (Prozac), um inibidor seletivo da recaptação da serotonina no córtex cerebral A aplicação desses conhecimentos tem alcançado níveis cada vez mais complexos e tem demonstrado que “os transtornos mentais são entidades clínicas complexas, em cuja gênese estão envolvidas inúmeras substâncias, disfunções neurofisiológicas e suscetibilidade genéticas” (Douglas Dogol Sucar).
A industria farmacêutica vem investindo pesado em pesquisa e na descoberta de novos medicamentos. Hoje já existem remédios para todos os transtornos mentais com real eficácia e sem os efeitos colaterais dos medicamentos do passado. Muitos desses medicamentos promovem cura, com remissão total dos sintomas, outros apenas remissão parcial. Há casos, no entanto, que os pacientes necessitam tomar remédios pelo resto da vida, como ocorre no tratamento de doenças crônicas tipo diabetes, hipertensão arterial, etc.
A psiquiatria da contemporaneidade é uma especialidade médica e cujo estudo das interações medicamentosas a qualificou definitivamente como uma especialidade clínica de excelência. Os neuropsicofármacos utilizados pela psiquiatria na atualidade são amplamente usados por outras especialidades médicas, em serviços ambulatórias, hospitais, urgências e UTIs. Daí, a importância de um maior nível de intercâmbio entre o psiquiatra e outros especialistas.
Todos esses novos recursos das neurociências associados a um profundo conhecimento do ser humano como um todo, se bem utilizados com ética e competência, colocará, em pouco tempo, a psiquiatria no âmbito das mais importantes especialidades médicas.
Porém o que mais dificulta o trabalho do psiquiatra no tratamento dos transtornos mentais é a falta de adesão por parte dos pacientes ao mesmo, seja por preconceitos, seja por uma condição sócio-econômica e cultural desfavorável. Apesar disso é fundamental que os pacientes busquem tratamento logo que apareçam os primeiros sintomas , ou nos casos de transtornos psicóticos, logo no primeiro surto, pois sabemos hoje que quase todos os transtornos mentais são neurodegenerativos, ocorrendo perdas de neurônios, ás vezes, com o aparecimento dos primeiros sintomas, antes mesmo da doença propriamente se instalar, como é o caso da esquizofrenia. “Esta doença atualmente está sendo entendida não apenas como decorrente de uma simples alteração na quantidade de dopamina na fenda sináptica, mas, também em função de uma complexa e integrada alteração na neurotransmissão glutamatérgica, em conseqüência do excesso de ácido cianurínico e de homocisteína, escassez de D-serina, glicina e glutamato, entre outros fatores implicados” (Douglas Dogol Sucar)
No caso dos transtornos do humor e particularmente o transtorno bipolar (que alterna depressão com crise de mania ou hipomania) pesquisas recentes têm demonstrado que quando não tratado adequadamente pode desencadear uma série de doenças não psiquiátricas por alteração no DNA da célula. O dano é produzido por causa do mau funcionamento do sistema mitocondrial. As mitocôndrias são estruturas responsáveis por processar a energia das células e quando não estão funcionando bem, seja por estarem sendo superexigidas, seja por estarem sofrendo algum tipo de dano por toxina externa, elas acabam liberando mais radicais livres que causam dano ao DNA da célula por oxidação. Isto explica o alto índice de doenças vasculares entre pacientes bipolares pelo fato do endotélio dos vasos ser muito sensível à toxidade, seja esta por oxidação ou outra causa. Segundo o pesquisador (Flávio Kapezinsk da UFRGS) que fez esta descoberta, juntamente com outros em volta do mundo, os pacientes com depressão bipolar devem iniciar o tratamento logo no primeiro episódio para prevenir o estresse oxidativo e consequentemente dano aos neurônios.
O transtorno do humor ou simplesmente transtorno afetivo é um dos grandes capítulos da psiquiatria na atualidade como foi no passado, já que representa um conjunto de doenças cujo denominador comum é a alteração patológica do estado de ânimo (humor), o que requer do psiquiatra um profundo conhecimento, experiência e habilidade para diagnosticar e tratar as diversas doenças que compõem este transtorno. Os transtornos do humor, em geral, e mais especificamente o transtorno bipolar são doenças que aparecem com maior freqüência em determinadas famílias. Esta afirmação foi formulada já por Kraepelin em suas primeiras aproximações à psicose maníaco-depressiva
Atualmente os transtornos afetivos têm recebido um atendimento especial dos psiquiatras, e que, por sua vez é de fundamental importância se fazer um diagnóstico diferencial entre depressão unipolar e bipolar, já que será a bipolaridade que marcará o tipo de tratamento a ser empregado, por exemplo, na depressão unipolar se usa predominantemente antidepressivos e na depressão bipolar principalmente estabilizadores do humor, já que em alguns casos o uso de antidepressivos é até contra indicado por provocar virada maníaca ou hipomaníaca.